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Textos

Dívidas

Eu tive que vender sete livros de minha estante
e os títulos de renda acumulados por minha mãe em dez anos.
Eu tive que vender meu sofá de couro imitado
que grudava as costas quando me deitava sem camisa.

Eu tive que vender a televisão que via
e os jogos que assistia à tarde antes do Faustão.
Eu tive que vender o ingresso que tinha para o clássico
do Sport contra o Náutico e ficar em casa para tentar vender
as camisas falsificadas que havia comprado na Dantas Barreto.

Eu tive que vender meus cd´s piratas
e os originais também.
Eu tive que vender os três quilos de feijão verde
que havia juntado pro meu aniversário na semana que vem.

Eu relutei em vender a poltrona velha que tive até ontem
e que havia ganho do meu avô pouco antes de sua morte.
Mas vendi.

Eu tive que vender meus dias de folga e anos de trabalho
numa empresa lucrativa do ramo de energia elétrica,
cujo nome eu prefiro não citar.

Eu tive que vender alguns móveis do meu quarto,
o criado-mudo e o guarda-roupa.
Agora deixo minhas roupas sobre duas cadeiras de plástico
que peguei emprestadas com a vizinha de baixo,
depois de vende-la algumas camisas novas.

Eu tive que vender o direito de me apaixonar
por uma atendente de telemarketing que morava lá em Candeias.
Eu tive que vender, inclusive, meu celular comprado
naquela mesma ferinha da Dantas Barreto.

Eu tive que vender moedas antigas que minha mãe
guardava em uma caixinha metálica
de biscoitos antigos que se diziam finos.

Eu tive que vender paixões roubadas e dizeres não ditos
a uma menina linda que encontrei em minha adolescência.

Eu tive que vender santinhos de gesso que minha vó
acumulou durante anos e que enfeitavam seus móveis.
Eu tive que negociar com os anjos da guarda minha proteção,
e ainda exigir minha bênção, sem dinheiro vivo nem dízimo
a se pagar mensalmente, e já com atraso, ao pároco da igreja
nova, aqui perto de casa.

Eu tive que jogar a Deus minha sorte pra não vender minha alma
pra um ser errado das histórias da bíblia.

Eu tive que vender botas furadas e sapatos usados
que já haviam sido usados por um de meus tios.

Eu tive que vender o olhar da moça que passou de mãos dadas
com o namorado e olhou sem pudor para mim.
Eu tive que vender os risinhos e desculpas que ela deu pro namorado.

Eu aluguei meus cintos pra serem usados, cada fim de semana,
num evento diferente daqui do bairro.
Eu tive que vender o lixo orgânico e o reciclável
que quase nunca vinham tirar daqui da frente da casa.

Eu tive que vender, com pena e tristeza, as mil cartas apaixonadas
que juntei durantes anos. E com elas, as lágrimas sinceras
de um amor bonito que tive e que guardo até hoje,
se não tiver que vendê-lo também.

Eu tive que vender o amor.

Eu tive que vender as poluções noturnas que tive com a menina
mais linda do colégio.
Eu tive que vender, inclusive, as fotos que tinha com a turma
da oitava série na festa em que bebemos vodka pela primeira vez
e eu peguei a Renatinha, que se dizia CDF, na escada do prédio da Paloma.

Eu tive que vender circuitos elétricos, garrafas de whyski nacional,
bombas de efeito moral, drogas leves e outras coisas que me deixavam ligado.
Eu tive que vender rolhas de vinho e o vinho, envelhecido em garrafas
postas em estantes de madeira que o cupim já havia corroído.
Inclusive as vendi também, não sei como.

Eu tive que vender minha loção pós-barba que comprei com tanto custo
após descobrir que tinha a pele sensível. Frescura, né!?

Eu tive que vender desodorantes vencidos, sopas guardadas
em potes de sorvete, meias com furos na ponta do dedão,
sandálias usadas durantes anos, sacos com sementes vermelhas
que haviam caído de uma árvore estranha, sons e ruídos que havia escutado durante a infância, cheiros e aromas que havia sentido e as lembranças.
As boas lembranças, e as ruins também.

Eu tive que vender tudo que não fiz de bom pra ninguém
e que devia ter feito.
Tive que vender meus sonhos e sabores.

Tive que vender o banho de mar às cinco horas da manhã,
e as aulas de natação às seis.
Tive que vender a sensação gelada da água fria da piscina do clube.

Tive que vender meus sonhos e os da minha mãe, que queria me ver
formado em alguma coisa, mas não dá.
Porque tive que vender minha honra e minhas calças,
pra pagar o vale B do Rio Doce/CDU que pego todos os dias. Bernardo Sampaio

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CUCA Recife em 24.02.2008 às 20h18

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